segunda-feira, 25 de junho de 2007

Sirley e a Barbárie Contemporânea.



A notícia chamou a minha atenção: uma empregada doméstica fora espancada por jovens de classe média na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, onde a violência é matéria todos os dias na mídia.

Essa notícia, no entanto, chocou-me. O que justifica essa barbárie?

Que jovens são esses que agridem e roubam uma trabalhadora que recebeu da vida muito menos do que eles?

Uma inversão que infelizmente está se tornando prática comum nesse país. Os ricos roubam os pobres (não que eu aprove a violência feita pelos menos favorecidos economicamente). Acontece entre os políticos e outras autoridades corruptas que afanam dinheiro da população em crimes de colarinho branco.

Isso já estamos cansados de ver e nem por isso deixamos de nos indignar.
Agora a agressão e o desrespeito chegam à classe média. Universitários agridem covardemente uma mulher que saía do trabalho e esperava o ônibus.

Eles, os bandidos, vinham de uma rave (festinha moderna que dura, sabe-se lá regada a que, mais de 12 horas). Desceram do carro, chutaram seu rosto, bateram no seu corpo digno e roubaram sua bolsa.

Reflexos de uma sociedade doente. Sofro com as famílias desses jovens, pois não acredito que se sintam felizes com tamanha brutalidade cometida por seus filhos.
Sofro com Sirley, vítima dessa barbárie contemporânea. Sou solidária a essa mulher corajosa que conseguiu denunciar e levar seus agressores às autoridades competentes.

Sirley hoje simboliza todos os que são agredidos e roubados pelos mais fortes nesse país.

Torço para que os agressores sejam punidos e que essa chaga social seja curada em nossa sociedade, antes que não encontremos mais solução.

A você, Sirley meu abraço e admiração.

Evelyne Furtado
Em 25 de junho de 2007.

domingo, 24 de junho de 2007

Quatro anos : a mesma flor.



Hoje eu te levarei a flor. A flor que é tua e que repetidamente te entrego, num sonho recorrente.

Um sonho que começou há quatro anos e que não nos cansamos de sonhar.

Te levarei meu olhar mais apaixonado, meu sorriso mais doce, meu corpo quente e meu coração, que é seu.

Renovarei a esperança nesse amor, cultivado à distância e fortalecido quando sou tua por inteiro; quando te recebo em mim; quando nos reconhecemos um no outro.

Hoje eu te levarei a mesma flor e verei em teus (meus) lábios o sorriso que me (te) encanta noite após noite, nesses quatro anos.

Hoje eu quero te reencantar e por mais sessenta e quatro anos te amar.

Evelyne Furtado, 20 de junho de 2007.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Carta a Sylvinha.


Você chegou pequenininha nessa família de mulheres especiais. Choramos juntas quando nos vimos pela primeira vez e continuamos chorando por uns dias até que eu me sentisse digna de cuidar de você.
Fui te amando mais a cada dia. E chegava a doer esse amor. Não fui mãe convencional, mas dei o melhor de mim para você. Alimentei-te com o melhor prato que pude fazer. O único que fiz com perfeição.
Fui crescendo com você. Deixando de ser menina à medida que você tinha uma febre, uma gripe, uma doença comum às crianças. Você foi uma menina saudável, graças a Deus, mas passei algumas noites acordadas vigiando o seu sono, medindo sua temperatura, aliviando sua respiração com nebulizações (lembro de me fechar no banheiro com o chuveiro quente ligado, enquanto te mantinha nos braços, com o peito untado de Vick, para melhorar sua tosse).
Você menina, me deu pouquíssimo trabalho e continuou assim, inclusive na adolescência. Foi fácil educar você. Difícil era não me emocionar quando você participava de qualquer apresentação no colégio. O meu choro era incontrolável quando via a minha menininha linda exibindo seus talentos.
Nunca precisei ser enérgica com você, meu amor, mas houve uma dor que lhe causei -não diretamente- e que ecoou em mim por muitos anos, apesar de ter a sensação de que você havia se tornado mais feliz desde então. Uma tarde, você ainda adolescente disse com todas as letras que tínhamos acertado naquela decisão: você tinha uma família feliz.
O amor é incondicional e constante. A admiração só tem aumentado.Ontem uma coisinha linda a nos alegrar; hoje uma mulher decidida, organizada, inteligente e responsável. Permito-me babar quando elogiam seu trabalho, sua determinação, sua garra. E o melhor é que você não perdeu a doçura e a ternura de menina.
De repente a minha cria afia as asas e dá seus primeiros vôos solos. Está preparada, eu sei. Dá uma lição de independência e eficiência na mãe mimada que aplaude e se emociona. Bons, vôos, minha flor, mas volte logo porque ando com saudade de você.

Evelyne Furtado, em 18 de junho de 2007.

domingo, 17 de junho de 2007

Uma janela na Rue de Renne



Abriu a janela e o ar frio atingiu seu rosto. Uma sensação gostosa, como também era gostoso o calor do interior no quarto. Os contrastes a atraíam. Sempre fora assim.

À sua frente, outras janelas ornadas com flores a faziam pensar em quem habitava aqueles cômodos. Tão charmosa a Rue de Renne! Ela se sentia em casa ali. Gostava de andar só pelas ruas, de sentar nos cafés, de olhar as pessoas passando, de imaginar para onde iam.

Há poucas horas sentira-se uma mulher feliz. Bateu pernas pelas calçadas e sentara para comer um croque monsieur com uma coca light. Adorava Coca-cola e nem o preço em Euros a assustava.

Um lanche simples e mais caminhada, olhando a cara de quem passava. Não só a cara: prestava atenção nas roupas, nos cabelos, nos sapatos e na expressão dos homens e mulheres de várias nacionalidades que nem a notavam, ou se notavam não se incomodavam com sua curiosidade.

Voltara ao pequeno hotel e após um banho, deitou-se para ler. Acabou cochilando, mas não descansou. Acordou, e a velha inquietação a tomou. Foi então para janela e tentou distrair-se adivinhando a vida dos habitantes da vizinhança.

Não deu muito certo e o pensamento voou para longe. Alguém a chamava em outro continente. Ou era ela própria que buscava aquelas lembranças para se reencontrar consigo mesma?

Não podia fugir de quem era, do que vivera. Ela nunca sabia se a ansiedade precedia esses pensamentos ou se era o contrário.
O fato é que as lembranças vinham sempre acompanhadas da velha inquietude.

Os sentimentos que envolviam suas recordações a deixavam ansiosa. Quanta coisa sentida, meu Deus! Quantas alegrias, prazeres, desilusões e sofrimentos. Chegadas e partidas. Será que as emoções contraditórias tornavam-no inesquecível?

Ah, ela amava os contrastes. Mas amar é sofrer? Não necessariamente, porém ultimamente ela amava e sofria. Nem adiantava dar a volta ao mundo, pois aquele amor tinha se entranhado na bagagem. Fazer o que? Amor que é amor vive nas entranhas mesmo.

Ai, que vontade de voltar a ser feliz como pensara ser naquela tarde. Melhor ainda seria tê-lo ali naquele quarto de hotel aconchegante. Já imaginou que delícia andar de mãos dadas por essa cidade linda, depois voltar para aquele cantinho e fazer tudo aquilo que os deixavam deliciosamente exaustos?

Agora acabara o sossego de vez! Acordar do sonho era tão desconfortável quanto pisar descalça sobre areia aquecida pelo sol de sua terra.

Era pior. Despertar daquele tipo de sonho era muito desesperador. Nem podia correr ou gritar. Refletiu um pouco e decidiu: só havia uma coisa a fazer: entrar numa Brioche Dorée, tomar um chocolate quente com croissant (vários, de preferência) e descer até a igreja de Saint-Germain-des-Prés.

Comer e rezar, para afastar desejos impossíveis. Depois, um café e um táxi de volta ao hotel. Sofrer de amor em Paris é no mínimo mais charmoso.

Evelyne Furtado

sexta-feira, 15 de junho de 2007

SEU DESTINO É AGORA.



As lágrimas molhavam seu rosto. Não sentia vergonha de chorar na frente dele. Homem não gosta de mulher chorando, diziam.Ela não ligava para isso.
– Não chore,por favor! Ele fala ao acariciar seu rosto. O gesto tem efeito oposto ao que ele desejou. Ela encosta a cabeça no peito dele. Sente o conforto daquele corpo quente e desanda a chorar, como se houvesse rompido um cano lá dentro do seu coração e toda a água estivesse inundando seus olhos escuros e tristes.
Ela tem certeza que o ama e o quer. Ele diz que a ama, que a quer, mas que não pode ficar ainda.
Ela sente o medo de perdê-lo e recua, como se ao sair de perto do homem amado, preservasse ao menos a sua dignidade. Acusa-o de fazê-la sofrer. Ele pede calma. Diz que ela sabe que não é assim. Repete que a ama e se aproxima com cuidado.
Atrás dela o abismo do abandono; à frente o homem amado dizendo não poder ficar ainda. A dor e o medo confundem-se com o amor. Ela teme olhar para trás.Ele toca seu ombro. Ela se chega devagarzinho. Levanta a cabeça e encontra o rosto bonito e amado. Olha-o nos olhos e vai perdendo as forças. Abraçam-se. Ele beija seus olhos ainda úmidos.
– Ah, eu te amo muito. Ele diz ao seu ouvido.É a rendição final. No momento ela esquece o que a levou a chorar. Não pensa no amanhã. Só há um destino possível. Entregar-se ao seu homem.Recebe-lo em seu íntimo. Seu destino é amá-lo e fazê-lo feliz. Seu destino é agora ser feliz.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Metrossexual.

Metrossexual é o homem heterossexual urbano que dá excessiva ênfase à estética pessoal. Esse novo homem é visto cada vez mais a partir dos anos 90 e tem no jogador de futebol britânico David Beckham o seu representante entre as celebridades internacionais. É perceptível a mudança.

Os homens assumem a vaidade com a aparência física e alguns até a expõe com certo orgulho. Nada contra. Ao contrário, e não conheço mulher que não goste.

Adoramos homens perfumados e bem vestidos. Achamos charmosa aquela preocupaçãozinha com o cabelo e a barriguinha de chope. A prática de exercícios físicos para se manterem saudáveis é elogiável.

Que bom que eles estão se cuidando mais! A aparência não é tudo, disso eu não tenho a menor dúvida, mas não deixa de ser importante e fico feliz ao ver a transformação na atitude de parte da população masculina.

Contudo, na minha opinião, há de ser contido um certo exagero. Qualquer um faz o que quer com seu corpo, mas têm coisas que a mim soam como desnecessárias.

O que leva um homem a fazer as sobrancelhas? É certo que o contorno das sobrancelhas num rosto feminino tem um efeito bacana, mas homem de sobrancelha desenhada tem o efeito oposto. O olhar masculino requer um ar mais forte, mais viril. Um quê de selvagem. Sei que há uma certa pressão dos consultores de beleza, mas fujam desse mico doloroso! Não precisa adotar o visual Brizola, claro: uma aparadinha vai bem, nesse caso, porém não mais que isso.

E a depilação do tórax, então? Pelo amor de Deus, não se submeta a essa tortura, a não ser que você seja um nadador de alta competitividade. Homem tem mais pêlos sim e essa diferença entre nossos corpos é fundamental. Toni Ramos vem mantendo seu posto de galã há anos na televisão brasileira a despeito do seu excesso de pelos. Concordo que não seja o ponto forte dele, mas não compromete sua beleza.

Cremes são admissíveis. A pele masculina merece tanto cuidado quanto à feminina, porém cuidado para não ficar dependente de uma nécessaire cheia de potinhos, que pode afetar sua imagem masculina. Preconceito? Talvez, mas estou sendo sincera.

Plástica para corrigir pequenos defeitos estéticos é um direito. Quem se aflige com algum probleminha desse tipo e pode fazer a correção aproveite. Mas, se você quer manter sua aparência máscula, não arrebite o narizinho. Esse tipo de cirurgia plástica costuma deixar dúvidas sobre a identidade sexual do homem às vistas de todos. Desvio de septo, tudo bem; nariz arrebitado de plástica, nunca!

O zelo com as unhas é necessário. Unhas descuidadas são terríveis, mas o esmalte, ainda que incolor, é dispensável. Freqüentar manicuro e pedicuro demonstra asseio e modernidade, mas não é obrigatório: você pode fazer em casa e nós não notaremos a diferença.

Tenho certeza que o metrossexual não é gay, mas o exagero pode confundir e se vocês não desejam apenas ser, mas também parecer ser heterossexuais cuidem-se, porém não se excedam.

Assim como nas mulheres, os excessos com a aparência podem encobrir uma baixa auto-estima ou deixar de priorizar outros aspectos que nos fazem seres humanos inteiros.

É fundamental para nós, homens e mulheres, alimentarmos a mente e o espírito para que não nos tornemos belas esculturas sem a essência da humanidade que nos torna semelhantes ao criador.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Enquanto você não vem.

Enquanto você não vem, decidi cuidar de mim. Esperar sentada é acumular frustrações a cada expectativa desfeita. Contar as horas é um exercício torturante, para quem aguarda.

Tentar me distrair também não ajuda tanto: entre uma distração e outra, há espaço para a ausência se instalar.

Não aboli os passatempos, mas optei por olhar para mim e cuidar da minha realidade.Sou alguém sem você. Alguém que pensa, sofre, ri, lê, aprende e cresce.Descobri que a realidade está aqui, ainda que você não esteja. Meu mundo é real e tudo a minha volta existe, apesar de você.

Tenho fantasmas a enterrar, dores a curar, vida a viver.Pensar apenas em você não sanará minhas dores.Sou eu quem tem que tratá-las, ou pelo menos tentar.Preciso encarar meus medos e abrir minhas chagas, se tiver coragem de fazê-los, pois a coragem nem sempre se encontra em mim.

Tenho que ganhar a vida, tenho que tratar meu corpo afetuosamente, tenho que alimentar meu espírito.

Por isso, recebo o carinho do sol no meu corpo quando caminho na praia olhando o mar e o horizonte. É a minha visão do mar e não preciso de você para isso.Leio meus livros com prazer e esse como todos os deleites que disponho são meus e não dependem de você.

As músicas que ouço lembram você, mas o gozo que agracia meus sentidos é meu. A conversa com amigos, as risadas, os abraços e o calor da minha família também podem ser vivenciados por mim com alegria, apesar de sua ausência.

O pranto da saudade ou de dor é a minha maneira de desafogar o peito quando comprimido pela dor. As linhas que escrevo põem em ordem minha bagunça emocional.E cuido de mim, assim, enquanto você não vem.

Quando você chegar estarei bem, graças a minha decisão e a Deus.Partilharei com você todos os momentos vividos e serei melhor para você. Se você não vier, vou sofrer, mas estarei íntegra, pois não deixei uma parte da vida à mercê de você. A memória dos nossos momentos está aqui e é parte de mim.

domingo, 15 de abril de 2007

Zila Mamede: Retratos de mulher III




EVELYNE FURTADO
Especial para a GAZETA

‘Gostaria que Nova Palmeira fizesse parte do Rio Grande do Norte’, dizia Zila Mamede, uma poetisa potiguar, nascida na Paraíba, em 1928.
De família norte-rio-grandense, muito cedo Zila mudou-se para Currais Novos (RN), onde permaneceu até o advento da Segunda Guerra, quando o seu pai foi trabalhar na base aérea de Parnamirim e a família estabeleceu-se em Natal.

A moça, que desejou ser freira, cursou biblioteconomia em Recife, onde teve seus primeiros contatos com a literatura.

Concluindo pós-graduação nos Estados Unidos, Zila voltou a Natal e organizou a biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (que hoje tem seu nome) e a Biblioteca Estadual Câmara Cascudo.

Em 1953, foi lançado Rosa de Pedras, primeiro livro de Zila Mamede, considerado por Manoel Bandeira um dos melhores livros brasileiros em versos.

A poesia de Zila contém o sertão de sua infância, o mar que sempre a fascinou, os rios e as lagoas do Rio Grande do Norte.

Seu poema Banho (Rural), incluído na Coletânea Os Cem Melhores Poemas, da Editora Objetiva, revela entre os elementos campesinos uma suave sensualidade:

"De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali se perdia, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecido,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural."



Zila pesquisou as obras de Cascudo e de João Cabral de Melo Neto, sendo do poeta uma grande admiradora. Em Drummond teve um leitor e um mestre. Esteve entre os grandes e foi, ela também, um expoente da poesia no Brasil.
Publicou cinco livros de poesias: Rosa de Pedras (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975) e Corpo a Corpo (1978). Ainda em 1978, foi publicado Navegos, reunindo todas as obras anteriores.
De Corpo a Corpo, destaco o poema "Onde". Nele a autora inova na forma e expõe questões existenciais com perfeita harmonia:

Entre a ânsia
e a distância
onde me ocultar?
Entre o medo
e o multiapego
onde me atirar?
Entre a querência
e a clarausência
onde me morrer?
Entre a razão
e tal paixão
onde me cumprir?


Em 13 de dezembro de 1985, Zila Mamede integrou-se às águas cálidas e mansas da Praia do Forte em Natal. O mar que sempre a fascinou devolveu seu corpo sem vida na Praia da Redinha. A hipótese de suicídio não foi sustentada e para aqueles que a admiravam, a poeta teve a morte que merecia, pois como cantou Dorival Caymmi "é doce morrer no mar / nas ondas verdes do mar".

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Voltando à Menina Má ( fazendo justiça).


Volto a Vargas Llosa e às Travessuras da Menina Má. Agora é pra valer.O romance é desses que a gente vai lendo à força a príncípio: sem vigor, sem grandes sacadas, nem emoção. Daí o primeiro comentário injusto, mas sincero abaixo. Do meio para o fim, o livro me pegou e não consegui largar. Não faço crítica literária, nem precisava dizer, mas faço questão.Sou da turma que lê por prazer simplesmente e me encantei com o amor inesgotável de Ricardito por sua menina má. Sou romântica, bem latina mesmo, portanto, adorei a ternura com a qual o peruano perdoava a sua menina e a si próprio (por amá-la) tantas vezes.Sempre amando a mulher sem caráter, sem se corromper, recebendo-a de volta sem se diminuir, cuidando do seu amor.Não dá para explicar essa relação, mas o narrador me convenceu de que valeu à pena. Se Deus quiser volto a Paris e quando andar pela Ecole Militaire, lembrarei desse par romãntico tão improvável, tanto na vida quanto na literatura.

Evelyne Furtado.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Mulher Madura


Esse texto foi sugerido por uma amiga, mas o escrevo com muita propriedade, pois o tema é meu também, afinal sou uma mulher madura e descasada, como ela. Fique claro que vou discorrer sobre a vida da mulher de quarenta (um pouco mais, um pouco menos).
Há muitas teorias, muitos mitos sobre a mulher madura. Há estereótipos e é aí que a coisa pega.Se a gente se fixar no que dizem as revistas femininas e outras publicações que tratam do assunto superficialmente, sente-se péssima. As comparações para melhor ou pior sempre afetam nossa auto-estima.
O fato é que convivemos com coisas boas e más, como em todas as idades. Quem tem quarenta anos hoje, já teve quinze, vinte e trinta. Em cada fase conviveu com problemas e alegrias. Encontros e desencontros.
Sofri às vésperas dos trinta e mais ainda às portas dos quarenta.Sofrimento inútil. Não havia um perigo na esquina da quarta década, como meus medos avisavam.Vivi preocupações motivadas pelo mito do fim da juventude, como se esta se esvaísse de um dia para outro. Como se nossos encantos sumissem de repente.Nada disso acontece assim, como se fosse maldição.
O culto à juventude não afeta apenas as mulheres, mas a nós atinge com mais crueldade, todavia vivo muitíssimo bem aos quarenta e poucos anos.Sou hoje uma mulher muito melhor do que fui aos vinte, ainda que alguns não achem isso, com base na aparência.Triste engano! Triste para quem pensa assim e não para mim.
Hoje ainda tenho dúvidas e inseguranças, mas já tive muito mais.Se perdi a inocência, não posso culpar a idade. Isso é amadurecimento!
Ah, aí vem mais um mito: o amadurecimento feminino assusta os homens.E daí, cara pálida? Vou fingir ser insegura para ter alguém fraco ao meu lado? Assumo minhas falhas, mas não as que já superei.Hoje sei mais sobre a vida do que sabia ontem. Saberei mais amanhã, se Deus quiser.
Assim, meninas, vamos vivenciando as delícias da maturidade: usufruindo a possibilidade de fazermos coisas que não podíamos fazer antes, usando o charme que a experiência nos concedeu e dispondo da sabedoria adquirida com a vida.
E não nos deixemos enganar: continuamos tão gostosas como antes ou até mais.Resta encontrar alguém especial que reconheça isso. Se acontecer será ótimo, se não, ainda teremos muito a desfrutar.

Evelyne Furtado, 04 de fevereiro de 2007.