segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Urgência?!


Que tempo é esse em que as horas escorrem em entardeceres sucessivos?
Não tenho pressa, mas é quase Natal e ainda ontem o Natal era uma longa espera. Agora a data parece colada ao carnaval em meu calendário interior que não se iguala nunca ao oficial.
Quem determino tal aceleramento? A que atribuir a disparada dos dias?
Não sei, apenas especulo, mas não interessa aqui discorrer sobre as minhas teorias.
Desisti de brigar, mas ainda me pego em vigília tentando evitar que as crianças cresçam rápido demais, que as flores não morram de súbito e que a idade não me amarele os sonhos.
A empreitada além de fracassada é pouco inteligente, por isso aprendo a relaxar diante dessa urgência de viver.
Ainda me agarro a algumas lembranças, mas me despeço de outras enquanto o amanhã sem tardar chega à minha janela.
Na correria os sentimentos misturam-se: onde foi lágrima é riso frouxo e a graça é interrompida em segundos pela melancolia.
Os valores também se embaralham entre o antigo e o novo na margem estreita entre passado e futuro.
O tempo não se rende, não, rendida estou eu diante dele tentando salvar o melhor que vivi e cultuando a esperança para o porvir.

Evelyne Furtado, em 09 de novembro de 2009.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Malembá.


Serei dona de uma balsa lá em Malembá. Comprarei apenas uma, pois não se trata de investimento, mas de sonho com vista deslumbrante que sou incapaz de descrever.
Só digo que de tão bonita me afetou ao ponto de querer para lá me mudar. Digo um pouquinho mais: em Malembà tem mar, tem rio, tem falésias, tem dunas e tem céu sem fim.
Malembá é a última praia antes do rio que me leva a Tibau do Sul e à Pipa, porém é mais que isso: Malembá é poesia natural. Claro que eu já conhecia, mas estou redescobrindo lugares dentro e fora de mim.
Malembá me faz rir de chorar ou chorar de rir. Tanto faz. Também não interessa se foi meu estado de espírito que se abriu para Malembà ou se foi Malembá que tocou meu céu.
Importa que me deu vontade de usar sempre vestidos brancos ou verdes e passar meus dias cruzando o rio, levando pessoas de lá para cá.
Não terei uma embarcação grande, pois quero oferecer um bônus precioso a quem àquelas bandas chegar. Enquanto você aguarda a vez do seu carro embarcar, terá todo enlevamento que eu encontrei em Malembá: a espera sem ansiedade e o benefício da contemplação.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Seguindo o Mar.


_ Seja como a montanha, diz o I Ching.
Mas como, se não sou forte, imóvel e sólida como ela?
Antes seguir o mar, sempre em movimento. Sou mulher regida pelas marés: molho os pés nas espumas, bebo maresia e me encanto no mergulho, não sem antes me benzer três vezes em reverência.
Sagrado mar, que me fascina no marulho, que me acalma em simplesmente sabê-lo ali, mas que tem o poder de me tragar mesmo na contemplação, quando é mistério insondável.
Rendo-me ao mar, na alegria dos banhos,no afago morno de sempre,no consolo da agonia e na beleza infinita em todas as suas nuamces.
Não serei nunca impenetrável como a montanha, pois nasci ao pé do mar e tenho em minha pele seu sal. Conviverei, portanto, com essa deleitosa condenação.

Imagem: Mar de Natal, foto de Stênio Arrais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


A cidade é a mesma em baixo dos meus pés? Há uma ponte nova e vistosa mudando a paisagem. Só há alguns dias ao subir a Ladeira do Sol percebi que a recente e enorme construção parece ofuscar o Forte dos Reis Magos, primeira edificação de minha cidade Natal.
Foi com certo aperto na alma que vi minha estrela tão querida quase invisível ao lado da ponte. Durou pouco, no entanto, minha angústia. Entendi que a Fortaleza não perdeu seu encanto. As pedras de sua passarela permitem-me ver sol de despedindo em um espetáculo lindo. O marulho tem uma sonoridade que chega ao coração e a proximidade do mar, umedece-me pele e alma. A cidade é a mesma e ainda me faz feliz.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Maresia.

Na praia
Bebo maresia
Meu anseio de mar.

domingo, 27 de setembro de 2009

CORAGEM.


De onde estava eu vi a mulher curvada.
_ Posição mais estranha! Pensei. Mas continuei observando a intimidade vizinha.
Ela abraçava a si mesma. Cabeça encostada aos joelhos, cabelos cobrindo o rosto, braços apertando as pernas.
Ficou em seu ninho por tanto tempo que meu voyeurismo cansou. Fui cuidar de outras coisas e a tarde passou.
Escureceu na janela de lá, porém a luz da noite era suficiente para ver que a mulher continuava encolhida, ainda que em outra posição.
Aquela visão me afligiu como nos afligem as dores mudas de quem se permite parar para sentir, em um mundo que nos obriga correr dos sentimentos profundos. Sem mais poder fazer, apenas respeitei.
Creio ter visto dias depois a mulher rindo na companhia de amigos em um café do bairro. Para mim se tratava da mesma pessoa em estado de alegria, em gestos soltos e expressão confiante.
A mim foi concedida compreensão de que a vida "ora aperta, ora afrouxa," como disse Guimarães Rosa e conclui que viver requer da gente a mesma coragem tanto para sofrer quanto para ser feliz.

Evelyne Furtado, em 28 de setembro de 2009.

A Mulher Que Sou.


Garimpo palavras como se fossem pedras.
Preciosas pedras, difíceis de encontrar.
Para expressar o que sinto
Para expressar o que sou
Preciosas palavras.
Que caibam justinho no meu sentir
Que sirvam ao tamanho do meu amor
Que digam ao mundo quem sou
Sim, que digam quem sou!
Pois sou tantas e todas tão confusas
Que não sei quem sou.
Que não sei aonde vou.
Por vezes, as todas que sou se embaralham.
Tento puxar o fio do novelo.
Para fazer una a mulher que sou:
A mulher criança que fui
A mulher adulta que estou
A mulher apaixonada, tantas vezes magoada.
A mulher feliz, tantas vezes amada.
A adolescente rebelde mora em mim, mulher madura.
A mulher que lutou para ser livre tem medo de ser.
Mas perder minhas asas?
Nunca!
Quero perder o medo da altura
E voar alto para ver melhor o brilho das pedras
E descer, me encurvar e escolher.
As pedras que me dirão quem sou.

Evelyne Furtado, 2006.