segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Boa Noite!


Largou o livro e levantou do sofá às pressas para terminar o jantar. O marido e os dois filhos adolescentes chegariam as dezenove horas e contavam com a mesa posta.
Conversariam sobre o dia. Na verdade a filha não andava falando muito ultimamente e isso a inquietava. Aguardava a oportunidade certa para abordá-la. Seria algum namorado? Uma menina bonita e inteligente deveria ter uma legião de interessados.
Lembrou-se de como se sentia na idade dela em relação aos rapazes e seu rosto adquiriu um ar travesso. Tentaria conversar  na primeira ocasião em que a menina ficasse longe do computador por mais de trinta minutos.
O filho , ao contrário, falaria entusiasmado sobre a faculdade. As novas ideias, os professores e os colegas eram  motivos de rasgados elogios e algumas críticas, até que o celular acusasse a primeira mensagem. Daí para frente ninguém mais em casa conseguiria manter um diálogo de  mais de duas frases com ele até o café da manhã.
O marido, coitado, chegava sempre exausto. Rosto e postura revelavam seu cansaço. Caprichar no jantar era uma maneira de confortá-lo. Salada, sopa e um bom bife acebolado com arroz soltinho. Comida caseira como ele gostava e só ela sabia fazer.
Foi uma luta aprender. Ela tinha certeza que não tinha talento para cozinhar. Era estudiosa e ambiciosa. Começou uma carreira que prometia ser brilhante quando o conheceu e apaixonou-se perdidamente. Mudou de cidade e achou a felicidade no lar.
Encontraria uma maneira de falar com ele sobre a viagem no próximo feriadão. Só os dois. Afinal os filhos já tinham idade para passar três ou quatro dias sozinhos.
Enquanto colocava a louça da máquina pensou que ninguém havia reparado na nova cor do cabelo. Tanto dinheiro gasto nas luzes! O cabelereiro disse que ela havia rejuvenescido dez anos. Como alguém remoçava dez anos e a família não nota? Talvez fosse por causa da iluminação da cozinha. Às vezes ela sentia um escuro na alma naquela hora do dia ali. No quarto ele perceberia. Com esperança terminou as tarefas domésticas e foi tomar um banho.
A água descia sobre seu corpo preparando-o para a noite que ela idealizava há algum tempo. A touca de plástico protegia os cabelos. A cabeça vagava entre a tarde no salão, a viagem à praia e o marido já de banho tomado ainda trabalhando no notebook. Não o deixavam em paz, coitado.
Após o banho, deu uma passadinha nos quartos dos filhos, mas sequer foi notada. A filha digitava um trabalho da faculdade. O filho dava risadas com amigos que ela não conhecia em conversas através do celular.
Ao entrar no seu quarto criou ânimo para conversar com o marido. Aproximou-se e ensaiou um afago. Ele pressentiu e interrompeu seu gesto com o melhor sorriso que pode esboçar. Estava terminando um relatório. Teria que enviar por e-mail até a meia-noite.
Não o incomodaria. Estava ela, também, cansada e subitamente vazia. Vazia e seca. Vazia e triste como o verso do poema que lia antes de preparar o jantar e não lhe saíra da cabeça desde então. "Senhor, a noite veio e a alma é vil" dizia o poeta em uma prece.
Adormeceu com a certeza de que na manhã seguinte aceitaria o convite para trabalhar em uma editora onde uma amiga exercia um cargo de gerência e estava precisando de uma assistente, mas antes compraria um computador para pagar com o primeiro salário.

Evelyne Furtado, 07 de janeiro de 2013.

3 comentários:

Jóia Rara disse...

Olá, td bem?
Bela escrita, às vezes, sinto-me assim...
Um abraço!

Eliane F.C.Lima disse...

Quando uma pessoa se anula para viver em função dos outros, só pode tornar-se invisível,claro. Clarice Lispector tem contos magistrais sobre isso. Belo conto.
Eliane F.C.Lima (Blogue "Literatura em vida 2")

Evelyne Furtado. disse...

Relendo conto e os dois comentário, deu uma saudade dos meus personagens. Preciso dar voz a eles. Obrigada.