quinta-feira, 19 de julho de 2007

Castelos de Areia.



À primeira vista era mais uma mulher passando na rua, seguindo seu caminho como tantas outras.Um certo cuidado na aparência tornava-a atraente, mas não chegava a se destacar.

O semblante um tanto ausente e uma maneira lenta no caminhar revelariam a um observador mais atento, a profundidade dos pensamentos daquela mulher.

Ela não seguia só. Carregava as angústias de um futuro próximo e ilusões do passado, algumas bem próximas outras não. Trazia consigo lembranças de momentos felizes, que emprestavam um leve sorriso ao seu rosto e um brilho travesso no olhar.

Mas nesse dia em especial, sua concentração estava nas expectativas frustradas e nas promessas não cumpridas.Quantos castelos de areia ela havia feito sabendo que o mar não os manteria de pé? É próprio do mar derrubar castelos de areia.

Mas sonhar era a atividade preferida dela e na adolescência os sonhos ainda que desfeitos tinham o futuro como atenuante e não doía tanto vê-los ao chão.

- Quem sabe a vida não surpreenderia com uma realidade melhor?

Assim foi vivendo, abrindo mão de um desejo por outro mais viável, sofrendo um pouquinho aqui e sendo feliz mais à frente.Teve alegrias e realizações, porém a vida, por vezes, mudava totalmente de curso e mostrava seu lado feio.Provocava mudanças drásticas e não havia como saltar do trem, tendo que continuar até a próxima estação.

Ela seguia, mas seguia sonhando, até que ouviu o primeiro alerta da maturidade, avisando-a que era hora de agir e ela agiu, mas não sem se apegar aos sonhos, eles davam força para continuar.

Havia, também, os que a convidava a fantasiar e ela fingia acreditar. Dissimulava tão bem que a fantasia tomava seu coração e quando a realidade despertava-a a dor e a raiva por ter sido co-autora da ilusão, faziam-na chorar.

Hoje as promessas não cumpridas apertavam seu peito.Vivia outro chamado da tal maturidade, seus devaneios agora doíam mais quando se desfaziam.

O futuro não era tão excitante como já fora. Já conhecia a vida, o que a fazia perder um pouco de esperança. - Será que isto é amadurecer? Indagava enquanto sentia um desejo enorme de se proteger no sonho.Seu caminho já não oferecia grandes perspectivas e sua alma escurecia ao constatar essa verdade.

Ela ainda queria mais, muito mais do que se arrastar pela rua fazendo de conta que sabia a onde ia.Queria voar, todavia mal andava com o peso das frustrações acumuladas e pedia baixinho a Deus para voltar a sonhar.

Evelyne Furtado, em 24 de janeiro de 2006

2 comentários:

Laura disse...

Que texto tao lindo! uma mulher capaz de escrever assim os sonhos, as ilusoes, as frustracoes, nunca é mais uma mulher na rua. Ela voa!

Evelyne Furtado disse...

LINDA, LAURITA!
Obrigada, minha querida amiga e incentivadora. Beijos.