quinta-feira, 22 de maio de 2008

Confesso: roubei suas flores.



Eu sei que não foi feito para mim, mas coube em mim como se você tivesse tirado as minhas medidas. Como se você me fotografasse todos os dias. Um instantâneo feito agora provaria.

Um texto com autoria e dedicado a alguém pode ser de qualquer leitor que o leia?

Ah, como eu quero uma resposta afirmativa. Ah, como me faria feliz se um poeta me visse dessa forma lírica e gostasse tanto de mim.

Hoje li uma frase linda que dizia assim: “Ser humano é levantar todos os dias", do escritor e jornalista Nei Duclós, no Comunique-se. Bem ou mal é melhor levantarmos, nem que seja para ler escritos assim; nem que seja para ver refletido nossos olhos vermelhos, pois também choro levantando ou não.

Graças a Deus não me faltam amigos bons, mas me falta aquele pedaço de alma que perco e encontro, sem nunca retê-lo em mim. Falta-me também paciência e me sobra ansiedade. Talvez seja essa a razão de não eternizar a chama que me aquece.

Você conhece alguém como eu. Você escreveu lindamente para ela e eu recebi como se as flores fossem para mim. Roubei-as, todavia ninguém notou, acho, mas a minha honestidade faz com que eu confesse o furto do buquê.

Você sabe que eu adoro rir? Verdade. Tanto choro, como dou gargalhadas, só que cada pedacinho que me levam eu choro e por isso eu roubo flores.

Não. Eu não sou ladra. Foi só dessa vez e de outras também com outros textos e com letras de músicas que me apodero como se minhas fossem. Afora esses casos não ponho a mão no alheio.

E sendo redundante digo que gosto muito de rir e de quem me faz rir.
Não sou triste: sou saudosa e sensível. Justifico assim minha admiração e meu crime. Não resisti a tal beleza e a tanto carinho.

Portanto não me condene. Ao contrário, permita-me ficar com algumas flores do seu jardim. Ninguém notará a diferença. Ele continuará cada vez mais bonito e eu me sentirei mais feliz.

Evelyne Furtado
Publicado no Recanto das Letras em 21/05/2008
Código do texto: T999786

3 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Roubar flores não pode ser crime -mas pouco pensamos nelas, agonizantes nas nossas mãos, jarras, túmulos e festas.

A Humanidade tem tanto de egoísta quanto de patética. Tem toda a razão a Natureza para ignorar olimpicamente nossos sofrimentos e gozos.

Beijo.

Evelyne Furtado disse...

Oi, Klatuu!
Meu delito é uma licença poética. Li um texto lindo e o quis. Confessei ao autor e fui perdoada.
Somos patéticos, egoistas,generosos, apaixonados, humanos.
Adoro flores, mas sou mulher e gosto de ser.
Beijos e obrigada.

AnadoCastelo disse...

Bonito texto. Só confirma a sensibilidade da autora. E como eu gosta muito de flores.
Beijinhos querida