sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Maria Antonieta: minha simpatia pela rainha difamada.



Tenho uma enorme simpatia por Maria Antonieta, a última rainha da França. Porém, esse sentimento nasceu muito depois que deixei os bancos da escola, uma vez que os livros de história, pelo menos os do meu tempo, tratavam-na pessimamente. Que horror aquela rainha má mandando o povo, que passava fome, comer brioche! Além de déspota, debochada!
Assim era ensinado no colégio. Vim conhecer melhor a vida de Antonia (seu nome original) há pouco tempo e desde então nutro carinho, piedade e admiração por sua majestade.
Antes me apaixonei pela Aldeia da Rainha, no entorno de Versalhes. É tão lindo, o lugar, que a mim tocou muito mais do que o próprio Castelo, inegavelmente belo. Percorri emocionada a tal fazendinha onde Antonieta brincava de camponesa e onde ainda hoje os guias difamam a coitada, que não escapou das más línguas nem depois de morta.
A partir dessa visita fui me interessando mais pela Rainha. Na livraria encontrei "Versalhes, O Refúgio da Última Rainha", de Kathryn Davis, um livro que trata da vida de Antonieta na França, em narrativa delicada e tocante.
Depois fui às biografias e Evelyne Lever, historiadora francesa deu-me tudo que faltava para que eu me envolvesse a ponto de torcer pela fuga da família real, forjada pelo Conde Axel (pretenso amante da rainha), para se salvar da prisão e da guilhotina. A sensação é semelhante a torcer pelo time do coração durante a reprise de um jogo no qual sabemos este foi derrotado. De qualquer maneira, fui solidária com a triste rainha e sua família até o fim.
Antonia saiu da Áustria, ainda menina, para o casamento com o futuro rei da França. Deixou mãe, irmãos, sua "casa" e foi morar com estranhos.
Que material para a psicanálise, hem? Quanta mágoa ela não devia sentir daquela mãe autoritária, a quem nunca mais viu, mas que continuou a manipulá-la por meio de cartas enquanto viveu?
E o casamento de Antonia e Luis? Pelo que sabemos dignos de pena quanto à ausência de romantismo e sex appeal. Todavia, pareciam muitos unidos. Havia um amor quase de irmãos entre eles.
De outro lado, não existe confirmação do envolvimento amoroso da rainha com o conde sueco, porém acredito que era bastante compreensível a aproximação dos dois, diante do total desinteresse do rei pelas coisas do coração (e do corpo).
Das minhas leituras restou a conclusão de que rei e rainha não estavam preparados quando da coroação e pagaram caro por essa precipitação, que não foi da vontade do casal real. A morte do avô levou um Luís XVI tímido e despreparado ao trono da França.
Na verdade eu simpatizo com os dois, mas faltava ao rei a personalidade vibrante que sobrava na rainha. Ambos sofreram muito. A invasão de Versalhes ocorreu logo após a morte do delfim, filho tão aguardado, quanto amado, mas eles suportaram tudo com dignidade. De acordo com os historiadores que agora resgatam a verdade, rei e rainha aceitaram com resignação as últimas humilhações e a tragédia final. Enfrentaram julgamentos e condenações justas e injustas, foram submetidas a penas cruéis e a família foi separada.
A Maria Antonieta foi impingida a pior das calúnias: acusaram-na de atos libidinosos com o filho. Dessa acusação ela foi absolvida, das outras não. A rainha antes de ser guilhotinada, sofreu tudo que uma mulher poderia suportar. Perdeu o contato com a família, sofreu hemorragias na pequena cela que a abrigava sem direito ao mínimo cuidado, foi tratada como um animal, porém foi aí que ela revelou a face maior do seu caráter: a rainha foi humilde e digna na dor.
Longe de mim discutir a história aqui. Apenas gostei de descobrir a humanidade por trás desses personagens históricos e adorei ver no cinema a Maria Antonieta pop, quase atual, mas, sobretudo cheia de vida, de Sofia Coppola. As cores, a música e a alegria do filme fizeram-me muito bem. E foi com gratidão que vi os créditos subirem na bela cena da saída do casal real de Versalhes. A diretora poupou à rainha e ao público sofrer mais uma vez com a visão do calvário.

2 comentários:

Lusófona disse...

É uma parte da história que não conheço, e também ainda não vi o filme.

Mas, a sua visão sobre a rainha, uma outra mulher mortal como todas nós, é muito bonita. É engraçado como as mulheres se vêm como rivais, nunca entendi isso muito bem, acho que falta um pouco de compreensão e de solidariedade entre nós.

Adorei ler-te!

Beijinhos e fica bem

Evelyne Furtado disse...

Oi, Lusófona!
Adorei seu comentário! Muito interessante essa abordagem sobre a competitividade entre nós, relacionada com o texto. Sugiro que você leia os livros aqui citados e depois veja o filme.Vale à pena!
Obrigada pela visita e beijos.