quarta-feira, 28 de março de 2007

DE OLHOS FECHADOS


Botticelli, O Nascimento de Vênus.



DE OLHOS FECHADOS

Ela hoje tem contato com seus recantos mais sombrios e sente o desconforto de quem pisa em seus próprios porões. Pela janela do apartamento, ela olha a noite, mas nada vê lá fora.Naquele momento sua vida mostra-se como é, sem os retoques que ela usa para disfarçar pequenas imperfeições em sua aparência.Naquela noite não há brilho.

Acende um cigarro. Voltou a fumar, mas só se permite desfrutar desse prazer quando se encontra só. Não fuma na frente do marido, nem dos filhos, pois a família condena seu pequeno vício.Ela também não come o que tem vontade, pois todos a sua volta fazem dieta e cobram dela o mesmo rigor à mesa.

Ela comporta-se como um modelo de mulher de sua geração. Malha religiosamente todos os dias e seu corpo responde a esse esforço.Tem uma carreira que não é lá essas coisas, mas lhe garante a condição de mulher que trabalha.O marido garante o padrão de vida que desfruta, afinal como poderia morar bem, ter carros do ano na garagem e viajar freqüentemente sem o dinheiro dele? Dinheiro, por sinal, que nem ela, nem ninguém, sabe de onde vem com exatidão.
Ela está só nesta noite e após o banho demorado, usou os cremes que a dermatologista receitou.Naquela manhã, submeteu-se ao último recurso da ciência para manter a expressão jovem no rosto e apesar de ter estranhado o resultado, vai terminar acostumando com o novo contorno dos lábios. Essas novidades vêm com tal força, que logo as pessoas vão achar que todas as mulheres nascem com a boca de Angelina Jolie e os seios de Pamela Anderson.
Seu armário guarda peças que traduzem as últimas tendências da moda.Tudo dividido em um closet com lugar certo para sapatos, bolsas, lingerie, jeans, vestidos, blusas, camisas, etc. Seu interior é que se encontra bagunçado. Ela não sabe mais o que sente ou o que deseja.É uma mulher sensível, porém se deixou seduzir pelas tentações do glamour.
Em alguns momentos, como agora, sua alma dói e ela nem sabe onde dói.Ás vezes o que há é um vazio tão ou mais incômodo que a dor.
Em ocasiões como esta, a solidão faz-se presente com muita força. Ela sente falta de si mesma.Sente saudade da mulher idealizadora, sensível e romântica. Ressente-se das emoções que deixou para trás, das alegrias mais sinceras, dos momentos de afeto e prazer verdadeiros.

Muitos projetos foram executados, todavia os sonhos mais profundos perderam-se no quotidiano. O homem apaixonado com quem se casou, transformou-se em alguém que tudo faz para satisfazer sua vaidade, inclusive oferecendo-lhe presentes para que ela os ostente em reuniões sociais. Por vezes ela sente-se como mais um símbolo que sinaliza a sua posição social e sabe que contribuiu para isso.

Por um breve instante lembra-se de um momento de amor e chega a sentir a magia vivida há tanto tempo. De repente não há tristeza, o sentimento de desprazer se esvai com a recordação, seu rosto é iluminado por um sorriso. No peito, a sensação é de enlevo.

Mas o efeito daquela lembrança é interrompido pela realidade. Ela ouve o barulho da chave na porta, indicando que seu marido chegou em casa, de onde saiu pela manhã.Ele volta cada mais tarde e o que antes a fazia sofrer, passou a ser um alívio.

Imediatamente ela corre para a cama e finge dormir. Fecha os olhos para não ver a expressão de prazer e culpa que ele traz no rosto e que tanto a magoou em outras ocasiões. Não suportaria ter que falar com ele e sair da fantasia que alivia sua dor.
De olhos fechados ela vai continuar seu roteiro romântico de mulher feliz e da vida que poderia ter e não tem.



Evelyne Furtado, 02 de abril de 2006.

Um comentário:

André Bessa disse...

Olá, Evelyne,

você tem uma maneira muito psicológica e fidedigna de observar o ser humano, e também muito agradável em descrevê-lo com palavras. Não é todo dia que essas qualidades se encontram, pelo menos, nos textos que lemos na internet. Parabéns pelo texto e pelo blog.

Um abraço.